Palhaço Pimenta

"O Pimenta foi um grande presente que ganhei da vida"

A primeira vez que, eu me lembro, de subir no palco, eu tinha 6 anos de idade. Foi uma festinha de escola e eu, junto com minha mãe, cantamos a música A Tristeza do Jeca. Depois disso nunca mais parei, continuou na escola, no catecismo, no grupo de amigos, nas brincadeiras... mas sempre o palco esteve presente na minha vida.

Na época de escolher uma faculdade, escolhi, dentre as dezenas de opções que eu queria, matemática. Isso mesmo. Descobri a matemática no antigo ginásio e me apaixonei.

Fui bancário durante um período da minha vida e no banco onde trabalhei, apareceu uma oportunidade de ir para a área de TI e fui.


Tudo certo: eu tinha a matemática como vocação e o teatro como hobby. Continuava com amigos fazendo atividades artísticas aqui, ali, nos finais de semana, assistindo muito teatro, cinema e qualquer evento cultural que aparecesse.

Na segunda metade da década de 80, o banco me mandou embora. Naquela época, uma recolocação dentro da área era muito fácil e garantida. Acontece que isso veio junto a uma enorme desilusão amorosa, um rompimento muito dolorido e definitivo. Parei, pensei e reavaliei os valores que eu tinha na minha vida. Como bom geminiano, claro que um leque de possibilidades se abriu na minha frente mas pensei que ali estava uma bela oportunidade de dar uma volta maior na minha vida do que a vida estava me dando.

Descobri que a vocação era hobby e que o hobby era vocação. Mudou tudo: as turmas de amigos, o status, o jeito de viver, as alegrias, os valores... tudo. Entrei para a escola de teatro e deixei meus conhecimentos de matemáticas por conta do meu lado racional e ele tem tratado muito bem dele. Fiz a escola, fiz novos amigos, fiz outro caminho para seguir, fiz novas relações. Tudo deu certo.

Fotografias de Karla Cozzer


Em um belo dia, no camarim da TV onde estava fazendo uma novela, um colega me chama para o elenco da peça que estava montando. Era muito sedutor fazer um vilão com muitos desafios. Eu teria que aprender a sapatear, cantar (eu já sabia um pouquinho embora com uma voz bem feinha) e CIRCO. Nossa! Isso encheu meus olhos. Topei na hora. O problema era que tínhamos 6 meses para nos prepararmos e como a maioria dos projetos de teatro, a grana que tínhamos era somente para a produção. Ator vive de outros prazeres. Nessa empreitada, conheci a família Medeiros que foram nossos professores de CIRCO.

Me apaixonei por eles e pelo circo. Aprendi pirofagia, acrobacia, malabares, chicote, trapézio, monociclo, perna de pau e não parei mais. Ficamos em cartaz por 6 meses e quando terminei a temporada, vi que tinha uma coisa muito comercial nas mãos. Sai fazendo eventos, um atrás do outro e acabei montando uma produtora. Durante um tempo, trabalhei muito mais com circo do que com teatro. Nesses eventos, porta de lojas, açougues, concessionárias de carros, eu vi um SER chegando de mansinho, que tinha vida própria, um espírito que chegou muito levemente e encheu a minha vida de alegrias. Todas que puder imaginar. Acho que é assim que o palhaço de verdade nasce. Não é quando queremos, é quando eles precisam.

O meu foi batizado por uma amiga minha, também palhaça: PIMENTA. Ele povoou a minha vida e povoa até hoje. Foi animador de festa, promotor de vendas, personagem de feiras, protagonista de teatro, o frescor da minha vida.

O palhaço é a expressão da alma na sua maneira mais pura e infantil. Aquele período da vida onde as coisas ruins não existem. Só existe o prazer, a brincadeira, a beleza, o amor mais incondicional. Pimenta não deixa essa chama apagar dentro de mim. É meu amigo, meu conselheiro, minha melhor expressão... minha alma.

O MUNDO DE PIMENTA

Virou um roteiro de filme: um andarilho solitário pelas ruas de uma cidade grande, que vive à procura das belezas que a solidão tem por trás. É apaixonado por luzes, câmeras fotográficas em ação e a Lua. Tem um grande e único amigo chamado Berinjela (seu cachorro de pelúcia). Vivem pela cidade procurando aventuras em um mundo autista. Até que um dia ele conhece uma moça que o enxerga e consegue entrar no seu mundo: O MUNDO DE PIMENTA. O resto, vocês vão ter que esperar o curta metragem ficar pronto. Provável lançamento em 2018.

Terei muito prazer em apresentar o PIMENTA a todos vocês.

Me chamo José Antonio de Souza Neto de batismo, porque fui o primeiro neto homem, muito aguardado, do meu avô paterno, um imigrante português, pai de 5 filhos homens. Tenho 60 anos de idade, mas isso é muito esquisito para mim. Às vezes acho que isso é uma brincadeira da vida, porque na minha autoimagem eu tenho 26 anos e 3 meses. 

Sou um geminiano ferrenho, fico entediado se não tiver nada para fazer. Escrevo no computador fazendo almoço ou jantar, assisto TV fazendo crochê ou tricô (isso me acalma), cuido da instalação elétrica da minha casa, das reformas da casa e do escritório, ajusto minhas roupas, empresário sócio de uma consultoria de recursos humanos, uma escola de recursos humanos, uma produtora de eventos que agora também está fazendo cinema, produzindo e atuando em um curta, uma web série, escrevendo um livro e iniciando o processo de um longa... Sempre fui da opinião que só não temos tempo de fazer o que não queremos fazer.

“Estou” muitas coisas na minha vida: empresário, dono de casa, mestre de obras, filho, irmão, tio, avô... mas SOU mesmo é ATOR. Isso é a maior paixão da minha vida, as pernas que me mantêm de pé para “estar” qualquer coisa que eu escolha. Para essa pessoa que eu escolhi ser, eu fiz questão de rebatiza-la e eu mesmo escolher um nome. Ele se chama José Netho.